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José Miguel Wisnik

Um corpo estranho tem atravessado como um cometa a lista dos best-sellers nas últimas semanas: 'Toda poesia', de Paulo Leminski. Um catatau cor de laranja em meio aos não sei quantos tons de cinza, um quinau de poesia flanando distraidamente em meio à corrida dos mais vendidos, com um pique vencedor (estou brincando, aqui, com o título de um dos seus livros, o Distraídos venceremos). Como diz o poeta curitibano, a poesia é um inutensílio que não tem nenhuma outra justificativa que não seja a própria razão de ser da vida, e de fazer parte, como o orgasmo e a amizade, daquelas coisas que não precisam ter um porquê: pra que porquê?. É ironicamente empolgante, além de intrigante, que a obra reunida do poeta, morto em 1989, se destaque de repente, inesperada, em meio à multidão de livros feitos ostensivamente para vender....

Ninguém, ao que eu saiba, sabe explicar a razão do fenômeno (mais de 20 mil exemplares em um mês e meio). E como os fenômenos de venda tornaram-se a razão de Estado de tudo quanto gira sob o controle de um mercado altamente administrado, é no mínimo curioso esse não saber sobre um certo poder imprevisível da poesia. Esperados sucessos que fracassam são mais comuns, nesse mundo de cálculos, do que fracassos que sobem inesperadamente à parada de sucessos. Pois estes desvelam, ao contrário, a emergência do incomum. Todos os editores que se aventuram no gênero trabalham com o fato de que o alcance monetariamente palpável da poesia é limitado por definição: poesia não vende. Envolvido na edição do livro com um texto escrito para ele (Nota sobre Leminski cancionista), pude ver de perto o quanto não estava no horizonte da editora uma expectativa de recepção quantitativamente maiúscula.
É certo que o senso poético de Leminski conversa de perto com a sua experiência publicitária uma prontidão certeira, uma agilidade verbal e mental (que se liga também à sua relação com as artes marciais e a com a poesia japonesa), com a concisão e a vocação icônica que o fazem encontrar imagens sintéticas derivadas de clichês postos à deriva. Mesmo a prosa experimental e vanguardista do Catatau não deixa de ser uma coleção alucinante de jingles alterados sobre frases feitas. A dupla face vanguardista e pop, anunciada pela poética leminskiana, encontrou uma perfeita correspondência no hit makerArnaldo Antunes, que a desenvolveu na poesia e na canção. A expansão desse campo talvez tenha contribuído para a onda de interesse retrospectivo por Leminski.
O bigode do polaco louco paca, à la Solidarnosc, já era, por sua vez, uma espécie de layout ambulante, um autorretrato metonímico que, aproveitado engenhosamente no projeto gráfico e promocional do livro, funcionou certamente como uma senha chamativa imediatamente reconhecível no meio do turbilhão das gôndolas das livrarias. Toda a guerra editorial contemporânea se aplica, aliás, a conquistar um lugar visível no congestionado espaço das megalivrarias, pressionadas pelo ritmo contínuo dos lançamentos buscando fisgar a atenção instantânea do comprador. A resposta instantânea realimenta, num momento-chave, a atenção do vendedor, que põe ou não o livro em espaço de maior destaque, promovendo vendas que, se sobem à lista dos mais vendidos, alavancam mais vendas, convertendo sucesso em sucesso. É de um tal círculo virtuoso e tautológico, disparado por fatores em parte imponderáveis, que dependeu a laranja mecânica de Leminski, associada ao carisma da sua figura e ao atrativo do objeto gráfico, para vir a contrair o vírus do best-seller.
Tudo isso continua a não explicar o porquê do sucesso insólito, embora sirva para situá-lo um pouco. Mas afinal, podemos perguntar também, pra que porquê? Um público de muitas idades, e jovem em essência, dá sinais de achar graça na gratuidade vitalmente comprometida da poesia de Paulo Leminski. Pois todo o circuito material e comercial descrito acima não avançaria numa direção tão improvável se não fosse guiado por uma necessidade interna e por uma confirmação de reconhecimento, passado o primeiro disparo do processo. Há uma sensível necessidade de poesia no ar, e ela foi identificada nesse poeta inquieto, capaz de ir fundo nas suas formas ancestrais e nas suas mutações contemporâneas, de transcender polaridades e de exercer a leveza profunda.
Durante algum tempo Curitiba não queria deixar Paulo Leminski morrer, como se ele tivesse que continuar imaginariamente ali, frequentando os mesmos lugares e as mesmas rodas. Mas o grande teste de um poeta é morrer, quando ele revela, como é o caso, o seu surpreendente poder de renascer.

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